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MOSTRA | PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Na abertura de um folheto de 1505 reproduzindo Mundus novus, carta que acreditava-se ter sido escrita pelo navegador florentino Américo Vespúcio, está impressa a primeira representação visual conhecida do Brasil. Na imagem em xilogravura, com exceção dos bebês de colo, todos os outros vestem uma saia de penas, indumentária inexistente em qualquer descrição dos habitantes originais da costa brasileira, mas que, curiosamente, fixou-se na iconografia do nativo. Era apenas o começo de uma longa série de distorções que terminaram por criar a imagem do Brasil em seus primeiros séculos. É sobre esse aspecto que se debruça a exposição Primeiras Impressões – O nascimento da cultura impressa e sua influência na criação da imagem do Brasil. A exposição, que introduz o tema da questão da criação da imagem do Brasil por meio de reproduções de gravuras históricas e ampliações em grande formato, é realizada pelo Museu da Casa Brasileira, instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, em parceria com Gustavo Piqueira. Baseada no livro do designer, Oito viagens ao Brasil, a mostra tem abertura gratuita no dia 24 de junho, às 14h. Na ocasião, também será realizado o lançamento do livro.

O conteúdo da exposição e do livro apresenta e discute o complexo amálgama de indústria, arte e códigos culturais vigentes que deu origem à criação da imagem do Brasil. Uma mescla de romances de cavalaria, bestiários medievais, tensões religiosas, interesses econômicos e, principalmente, parâmetros produtivos da então incipiente indústria do livro, cuja consolidação se deu quase simultaneamente à chegada dos europeus à América e recheava sua prática editorial com atitudes hoje impensáveis — como rearranjar pessoas numa ilustração ou repetir a mesma imagem em textos completamente diferentes. Não à toa, portanto, o primeiro livro publicado sobre o Brasil, o relato do alemão Hans Staden Duas viagens ao Brasil, de 1554, surgiu em diferentes edições ilustrado por elefantes, Jesus crucificado ou turcos otomanos.

Emoldurando o conteúdo da mostra, grandes ampliações do volume três das Grandes Viagens, a coleção de relatos sobre o Novo Mundo publicada pelo belga Theodor de Bry que, ao reler as xilogravuras originais do livro da Hans Staden em exuberantes e explícitas gravuras em cobre, cristalizou a imagem do Brasil em seu primeiro século após o desembarque de Cabral. Imagem esta que, de certa maneira, ainda perdura entre nós.

Após o período em cartaz no Museu da Casa Brasileira, a exposição abre na Caixa Cultural Brasília entre 04 de agosto a 10 de setembro, como parte da Bienal Brasileira de Design Gráfico. 

Oito viagens ao Brasil
Conhecido por produzir livros de difícil classificação, nos quais mistura livremente texto, imagem e design, o designer criou a caixa Oito viagens ao Brasil, com oito livros, cada um trazendo sua própria combinação entre antigo e contemporâneo, ficção e história, linguagem visual e escrita. Trata-se de uma verdadeira demonstração prática das possibilidades de ocupação do suporte impresso: dentro da caixa encontramos um livro-objeto completamente rasgado; um volume trazendo uma narrativa visual com colagens sobre fotografias oficiais de presidentes e imperadores do Brasil; personagens fictícios que discutem entre si através dos diversos volumes; textos originais de Hans Staden ilustrados por fotografias contemporâneas (e nada charmosas) de Ubatuba; xilogravuras da primeira edição de Staden emoldurando um texto ficcional contemporâneo; uma história em quadrinhos pra lá de amadora, entre outras coisas.

Boa parte das muitas imagens que ilustram os livros foi fotografada diretamente do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, que coedita a caixa junto à Editora WMF Martins Fontes. Para a exposição, essas imagens foram ampliadas em painéis de quase 4 metros de altura.

No evento de lançamento e abertura da exposição, o livro será vendido com 50% de desconto, e os cinquenta primeiros compradores ganharão um cartaz impresso em serigrafia, criado a partir das imagens do volume 4 da obra.

Sobre o autor
Gustavo Piqueira é um dos mais premiados designers gráficos do país. À frente de seu estúdio Casa Rex, ganhou mais de 400 prêmios internacionais de design. Como autor, já lançou 17 livros, como o “conjunto narrativo de jantar” Lululux (Lote42/2015), a experiência literária-postal-urbana Valfrido? (Lote42/2016), a ficção construída a partir de fotos antigas Lorde Creptum (Pulo do Gato/2015), finalista do último prêmio Jabuti na categoria juvenil, e a “Bíblia medieval contemporânea” Mateus, Marcos, Lucas e João (Edusp/2014), evangelhos que trocam Jesus por um creme anticelulite.

Abertura: 24 de junho, sábado às 14h – entrada gratuita
Visitação: até 13 de agosto

Realização: MCB e Casa Rex
Apoio: Editora WMF Martins Fontes e BBM Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – USP